quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Cheiro de tabaco e expectorante

Ele entra na loja, mesmo sem vontade de comprar nada. Ele nunca entendeu aquele desejo consumista da alma humana. Nunca entendeu a necessidade que as pessoas têm de comprar aquilo que nunca precisam.
- Posso te ajudar em alguma coisa? – o atendente se aproxima.
- Não seu babaca, eu disse que precisava de alguma coisa? Se eu precisasse você iria saber.
Ele adorava a expressão no rosto deles. Aquele ultraje, como se ele tivesse quebrado alguma regra de grande importância. Sempre se perguntava o que eles responderiam. Normalmente eles só se afastavam.
- Senhor, sou o gerente da loja, algo de errado?
- Vou te dizer o que tem de errado, seu nojentinho, são cretinos como você que me enojam. Tudo que eu quero é escolher alguma coisa sem ter um babaca perguntando se eu preciso de alguma coisa. Isso é pedir muito?
- Senhor, eu vou lhe pedir que você se retire.
- Não precisa nem pedir, eu levarei meu dinheiro para uma loja onde os atendentes não parecem deficientes mentais após uma aula de ginástica. – ele gritou da porta, fazendo as pessoas que passavam por ali pararem com aquela curiosidade típica dos seres humanos.
Ele tinha pena das pessoas que gastavam fortunas com analista. Como se a felicidade estivesse em dar dinheiro para outra pessoa. – Seu cartão não passou dona Maria, receio que suas frustrações e medos terão que ser ignorados até que você aprenda a pagar suas contas.
Ele gostava de xingar atendentes de loja. Era barato e funcionava muito bem. Uma paz de espírito transbordava pelo seu corpo, como se a felicidade estivesse escondida em cada palavra desferida para humilhar o outro.
Ele esbarrava em corpos em movimento. Pessoas que pareciam robôs circulando por corredores enormes fazendo apenas aquilo para que foram programados.
Ele via garotos vestidos de forma assustadora que os faziam parecer idiotas. E eles se sentiam como se vestissem seus uniformes na parada do orgulho patriota, e carregassem medalhas de honra ao mérito demonstrando seus feitos mais bravos.
“A força da juventude está sendo estragada por esses babacas que acham que atitude está em se vestir feito uma bicha. Toda a luta conseguida pela geração passada foi perdida assim que a cultura e a televisão tornou esta geração uma massa de debilóides que acham que fazer parte de uma cultura é imitar tudo o que acontece na televisão”, pensou enquanto encarava aqueles seres esquisitos e desejava que o Deus vingativo do antigo testamento realmente existisse.
Toda a paz de espírito tinha realmente acabado. Ele teria que entrar em mais uma loja para xingar mais um atendente se ele quisesse realmente terminar o dia mais ou menos feliz. “Babacas”, pensou, “por que não me deixam em paz?”.
Entrou na primeira loja que viu sem prestar muita atenção aos detalhes.
- Senhor, posso ajudá-lo?
Virou-se e viu uma garota. Ele odiava ser homem. Ele odiava sentir a necessidade de ter todas as mulheres bonitas para si. “Merda”, pensou, “minha terapia já era”.
- Acho que sim... – falou sem convicção, sem conseguir se esquivar daqueles olhos. Ele queria matar um elefante e trazer o coração para ela, assim como os homens de antigamente faziam. Ele queria construir uma montanha de ouro maciço como os deuses faziam quando desejavam cortejar uma mortal, uma mortal de beleza tamanha que fazia com que até deuses se apaixonassem por ela.
Os tempos mudaram, tudo parecia mais complicado hoje em dia.
Ela sorriu. Depois disso ele pouco se lembra. Quando deu por si estava no estacionamento, segurando uma sacola.
- Diabos – falou em voz alta – mas o que foi que aconteceu?
Acendeu o cigarro e remexeu a sacola que tinha nas mãos. Tirou de lá uma calcinha no exato momento em que duas senhoras passavam . Apenas o timing perfeito para que elas pensassem que ele fosse um pervertido ou algo assim.
Aos poucos se lembrou de uma história fajuta que ele inventou na hora. Aniversário de noivado, dois anos. Ele queria alguma coisa para demonstrar sua paixão para ela. O plano era voltar alguns dias depois com a história de que sua noiva tinha trocado ele pelo melhor amigo. Quem sabe ele ganhava a simpatia dela e uma trepada grátis. A história lhe parecia boa na hora, agora já achava imbecil.
Mas ele ia voltar, sempre voltava.
Entrou no carro, jogou o cigarro fora e engatou a primeira. Seria uma longa noite.

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